''Desejando o papa Bonifácio VIII fazer mais algumas decorações na sacristia da Igreja de São Pedro, mandou mensageiros percorrerem a Itália, intimando os maiores pintores da peninsula a virem a Roma. Um deles entrou na cabana de um pintor campones, na Toscana. Ouvira dizer que esse artista rústico, alegre e extravagante, dividindo o tempo entre o pincel e o arado, pintara algumas lindas paisagens de sua provincia natal.
- Sua Santidade, o Papa, deseja examinar seu trabalho, mestre Giotto - disse o mensageiro - Está chamando a Roma todos os bons artistas. Deixe-me ver alguns de seus quadros; assim decidiremos se podemos aproveitá-lo.
Giotto riu e mergulhou vigorosamente um pincel num pote de tinta vermelha. Com um traço negligente, riscou um enorme círculo num pedaço de papel, e entregou-o ao mensageiro.
- É este o meu trabalho. Veja-o. Gosta?
- Que abosurdo é esse? Estou aqui numa missão séria.
O pintor encolheu os ombros, como se dissesse: ''Deixe aqui ou leve. É o que posso fazer de melhor''.
- Então é isso o trabalho de Giotto! - disse o Papa quando o mensageiro voltou, trazendo a amostra - Um grande circulo vermelho e nada mais?
- Ele é um tolo pretensioso. Pai. Foi-lhe oferecida uma grande oportunidade. E o que fez, traçou um grande círculo vazio.
- Diga-me uma coisa - Perguntou o Papa - Teve ele muita dificuldade no traçar desse círculo, sem o auxilio do compasso?
- Não, Pai. Somente com um mergulho do pincel na vasilha e um traço displicente.
- Bem, bem. Não está nada mau esse círculo. Na realidade é um círculo bem redondo. Ele deve ter um bom golpe de vista e mão muito firme para fazer isso. Que tipo de homem é esse Giotto?
- Um campones vulgar, Pai, e feio como Satanás. Contam que sabe uma quantidade de anedotas pitorescas.
- E o consideram um artista?
- Dizem que pinta um carneiro ou um cachorrinho numa parede, num pedaço de cerca quebrada. E, como por milagre, a mancha imediatamente parece ter vida. Mas decerto somente os camponeses pensam assim.
- Os camponeses sabem o que falam. Eu próprio já ouvi histórias semelhantes sobre esse homem. Quando menino, não foi aprendiz do grande Cimabue? Dizem que uma vez, enquanto Cimabue saiu da sala, Giotto pintou uma mosca no nariz de um dos retratos do mestre. Cimabue tentou tocá-la, quando voltou. Você perguntou de que familia é ele?
- É filho de um ferreiro, Pai. Pastoreava rebanhos de ovelhas, em Mugello.
- Essas colinas em Mugello são muito verdes, eu me lembro. E o povo de lá é um povo simples. Mas, de tempos em tempos, surge entre eles um homem de visão. Você compreende?
- Compreendo, senhor.
- Esse homem poderá entreter-nos. Se não for com seu gênio, ao menos com seus gracejos rústicos. Traga-o a Roma.''
Texto retirado da obra:
Vidas de grandes pintores (Henry Thomas).
Ass:
Leonnis.