sábado, 29 de junho de 2013

Mulheres Perversas - Pirataria



Nesta postagem pode parecer que estamos desviando levemente o foco do blog, já que avançaremos alguns anos na história, escrevendo sobre o período da era dourada da pirataria (séculos XVI – XVIII). Entretanto o termo pirataria é bem antigo, surgiu na Grécia com Homero em seu poema épico, a “Odisseia”, onde ele designou o termo “pirata” para todos aqueles que pilhavam navios e cidades costeiras.

"Na mente do marinheiro há um horror supersticioso conectado à palavra pirata; e há poucos temas que interessem e excitem mais a curiosidade dos homens do que as terríveis proezas, os feitos sórdidos e as carreiras diabólicas desses monstros em forma humana"

Charles Ellms,

The Pirates Own

Book



Eis que estás a assistir “Piratas do Caribe”, quando de repente, já na metade do filme, você se depara com uma situação um pouco estranha, uma graciosa e simpática mulher se envolve com piratas perversos e, em pouco tempo, acaba e se caracterizando e se identificando como um deles. Não demora muito para aparecer aquele questionamento em sua mente – Como diabos uma mulher pode
se comportar desta maneira? Não existem piratas mulheres, que absurdo, piratas são figuras diabólicas que destroem tudo que aparecer pela frente, roubam joias, tesouros e matam todos os que se opuserem a eles. - Pois é... como Charles Ellms descreveu, piratas são de fato “monstros em forma humana”, porém o que poucos sabem é que dentre tais figuras (como Edward Teach, Henry Morgan, Bartholomew Roberts , John Rackham e o Capitão Edward Low ), existia também a presença de mulheres que ficaram famosas por seus atos de pirataria. De fato, são poucas as que conseguiram ficar conhecidas, mas em geral, todas elas podem ser consideradas tão perversas e perigosas quanto os piratas homens. Dentre as mais famosas podemos citar Grace O' Malley, Cheng I Sao, Anne Bonny e Mary Read.


GRACE O’MALLEY

"Veio até mim também a mais feminina capitão do mar, chamada Granny Imallye, e me ofereceu seus serviços, para onde quer que eu a mandasse, com três galeras e duzentos homens experientes no combate, fosse na Escócia ou na Irlanda. Trazia consigo seu marido, porque tanto no mar quanto em terra era bem mais do que a sra. Mate [...] Esta foi uma mulher famosa em toda a costa da Irlanda."

Sir HENRY SIDNEY, 
Governador da Irlanda, 1576

Grace O' Malley nasceu por volta de 1530 em Connaught, costa oeste da Irlanda. Ela pertencia há um clâ que tinha como lema “Terra marique potens” (Poderosos na Terra e no mar), os Uí Mháille. O pai de Grace era um chefe local e sua família possua muitas propriedades pela Irlanda, inclusive um castelo. Como sua família era rica, Grace pôde receber uma educação formal, porém ainda garota, ela gostava de se juntar aos meninos e se aventurando em navegações. Foi nesse momento que ela recebeu o apelido de Granuaile (careca), pois cortava seu cabelo de modo a parecer um garoto. Granuaile cresceu vendo seu pai a bordo de navios, e acabou aprendendo sobre o mundo dos negócios, da política e pirataria, adquirindo também grande experiencia de navegação.


Grace O' Malley iniciou sua carreira como pirata após a morte de seu primeiro marido, Dónal O’Flaherty. Ela montou uma frota de três galeras e alguns navios pequenos, começando então saquear e pilhar outros navios. Daí por diante, sua fama foi crescendo cada vez mais após bem-sucessivos ataques de pilhagem por boa parte da Irlanda e Escócia. Não demorou muito para que surgissem várias lendas e canções sobre suas expedições.


Uma história interessante que mostrava o tamanho da grandeza de Grace, ocorreu em 1567, quando ela dava a luz seu primeiro filho, Theobald, a bordo de seu navio ao mesmo tempo que estava sendo atacado por piratas norte-africanos. Grace, logo após dar a luz a Theobald, subiu imediatamente ao convés coberta apenas com um lençol incentivando seus homens a reagirem ao enquanto que ela pegava um mosquete e disparava contras os inimigos.

Mais tarde, Grace acabou se envolvendo em disputas políticas entre irlandeses e ingleses, o que acarretou em sua decadência, onde foi constantemente perseguida por Sir Richard Bingham, comandante naval inglês da rainha Elizabeth I e governador em Connaught. Bingham convenceu um dos filhos de Grace a se unir contra sua mãe, enquanto o outro acabou sendo preso após render-se. A única saída de Grace O' Malley, que já estava desestruturada por toda humilhação que Binghan a fez passar, foi conversar diretamente com a rainha Elizabeth I em Londres. Para isso, Grace teve que fazer uma jornada um pouco perigosa, já que seu status de rebelde e pirata a deixava em evidência.

Grace e Elizabeth
A Rainha, em uma conversa amistosa (episódio que marcou o folclore irlandês), concedeu o direito de Grace reconstruir sua frota e viver em paz, também ordenou a libertação de Theobald (filho de Grace). Então Granuaile voltou para a Irlanda e se restabeleceu como pirata. O único descontente com essa situação foi o Sir Richard Bingham, que continuou a provocar e perseguir Grace, até ser substituído por Sir Conyers Clifford em 1597. Grace O' Malley já com seus 70 anos, e sem aquele vigor de sua juventude, entregou a tarefa de recompor a glória da família a seus filhos, morrendo poucos anos depois, imagina-se que foi em 1603 no castelo Carraigahowley.



CHENG I SAO


E agora vem a passagem mais notável na história desses piratas [...] Após a morte de Ching-yih, sua esposa legítima tinha suficiente influência sobre os piratas para induzi-los a reconhecer sua autoridade no lugar de seu falecido marido [...] a viúva de Ching era tão inteligente quanto corajosa [...]
CHARLES ELLMS,

The Pirates Own Book: Authentic Narratives of the
Lives, Exploits and Executions
of the Most Celebrated Robbers

Poucas mulheres chegavam a ser tão perversas e cruéis como os homens, mas uma em particular ganhou destaque. Cheng I Sao era casada com Ching Yih, um dos piratas mais famosos do início do século XIX, conhecido pela sua capacidade de liderança e sede por sangue. Ching Yih dominou os mares da China através de sua mão de ferro e brutalidade e só foi de fato vencido pelas leis da natureza, pois dizem que ele morreu em meio a uma tempestade, onde um poderoso furacão o atirou para fora de seu navio. Para comprovar o tamanho de sua brutalidade segue abaixo uma declaração de John Turner (feito prisioneiro de Ching Yih por 5 meses), em “Sufferings of John Turner...” :

"Eu vi um homem [...] preso pelos pés ao convés com grandes pregos, e depois espancado com quatro cordas trançadas juntas, até ele vomitar sangue; e, depois de permanecer algum tempo neste estado, foi levado à praia e esquartejado. [Enquanto um segundo prisioneiro] foi colocado de pé e teve os intestinos abertos e o coração arrancado, que eles depois mergulharam em bebida
alcoólica e comeram [...] O corpo morto eu mesmo vi."

Após a morte de Ching Yih, sua esposa Cheng I Sao foi quem o ocupou seu posto como comandante. Isso de certa forma não era incomum, pois na China não era estabelecida uma forte divisão de trabalhos entre homens e mulheres. As mulheres na China podiam fazer os mesmos trabalhos que os homens, e até mesmo ocupar cargos de alta importância. Cheng I Sao, a partir de então começou a ficar famosa pelos seus sucessos como pirata, ultrapassando até mesmo os feitos de seu ex-marido, mantendo sempre sua postura rígida e sua maneira cruel de punir aqueles que desafiavam seus métodos e suas regras.

Mesmo com as constantes tentativas do governo chinês acabar com a pirataria, Cheng acabou construindo um império comercial com uma perspectiva um pouco diferente dos piratas ocidentais, já que ela era uma profissional dos negócios, possuía metas e objetivos estabelecidos e a cada ano aumentava sua margem de lucro. Porém Cheng I Sao não era apenas conhecida pela sua crueldade e habilidade com negócios, ela e sua frota também possuíam uma inteligência estratégica de defesa acima da média, possibilitando a manutenção de se império marítimo sem muitas dificuldades.


Entretanto, em 1810, esse grande império náutico passou por um sério problema e quase que acabou sendo destruído. Os problemas começaram quando Cheng I Sao promoveu seu marido Chang Pao a vice-comandante. Isso gerou intriga entre alguns líderes dos outros esquadrões de Cheng I Sao, o mais notável desses líderes foi O-potae; a situação a partir daí ficou complicada. Pouco tempo depois, Chang Pao e sua frota foram bloqueados pelos navios do Imperador chinês. Cheng ordenou o que O-potae resgata-se Pao, porém essa ideia não alegrou O-potae, que recusou a ordem. Cheng então quebrou o bloqueio e resgatou seu marido declarando guerra a O-potae, este teve de se retirar para não ser massacrado.

Sabendo que estava com os dias contados, O-potae pediu indulto ao governo chinês, que acabou o concedendo e o nomeando oficial imperial da marinha chinesa. Nessa brincadeira, Cheng I Sao havia perdido mais de 8 mil homens que desertaram com O-potae, obtendo suas liberdades. Essa redução na frota de Cheng, mais a presença dos navios britânicos e portugueses, que ajudavam o governo chinês a acabar com a pirataria, acabou por encurralar Chang Pao e Cheng I Sao. Sabendo que não tinha muita escolha, Cheng já tinha se decidido seguir o mesmo exemplo de O-Potae, quando o próprio governo chinês ofereceu a anistia de Cheng I e de grande parte de seus homens. Cheng I Sao, após algumas reuniões aceitou a oferta do governo chinês e seu marido foi nomeado capitão da marinha imperial.

Cheng I Sao, após a morte de seu marido, virou comerciante e dirigiu um estabelecimento de jogos. Morreu aos 69 anos , em 1844, entrando para a história como a mulher que consegui construir o maior império pirata que o mundo já viu, nenhum outro pirata igualou o domínio e a frota de Cheng I Sao. Infelizmente, apesar de muitos descreverem detalhadamente como eram as atividades nos navios de Chen I Sao, não há nenhum documento que descreve como era sua aparência.


ANNE BONNY

"Ela tinha um temperamento selvagem e corajoso,
razão pela qual, quando estava sendo julgada, várias histórias foram contadas sobre ela — o que sem dúvida a prejudicou muito."

CAPITÃO CHARLES JOHNSON,

A General History of the Robberies and

Murders of the Most Notorious Pirates



Anne Bonny nasceu em 8 de março de 1700 na Irlanda, era filha bastarda de um advogado, William Cormac, com sua criada Mary Brennan. William gostava muito de sua filha, então para evitar comentários ele obrigava sua filha a se vestir como um menino, porém não demorou muito para que a fraude fosse descoberta, o que provocou um grande escândalo, obrigando William, Anne e Mary a se mudarem para a América, na Carolina do Sul.

Anne era descrita como uma moça muito bonita, alta, esbelta, com os cabelos dourados e olhos castanho-esverdeados. Porém, apesar de sua aparência, Anne foi marcada por ser uma menina muito violenta, desde sua infância mostrou indícios de que não seria uma mulher comum; aos 13 anos, Bonny esfaqueou uma jovem criada na barriga com uma faca de trinchar. Anne foi crescendo, e rapidamente foi se entediando pela vida no campo. Em sua adolescência passou a se relacionar com um marinheiro pobre, o que deixou seu pai furioso, expulsando-a de casa.
Anne Bonny
Anne e seu marido foram para a ilha de Providencia, conhecida como reduto de piratas, e lá se apaixonou por John Rackham, o famoso capitão Calico Jack, que estava tentando levar uma vida honesta. Porém Rackham não conseguiu viver de uma maneira honesta e montou uma nova tripulação, ele também convenceu Anne a abandonar seu marido para que pudessem ser piratas jutos. 

Por regra, não era permitida a presença de mulheres na tripulação, exceto por prisioneiras, e foi por esse motivo que Anne Bonny teve que se disfarçar com roupas de homens. O disfarce foi bem aceito, já que as habilidades de luta de Bonny eram tão boas quanto as de um homem. Porém não era muito fácil para as mulheres se disfarçarem como piratas, tinham que controlar suas necessidades para que não fossem descobertas. Certa vez, um tripulante desafiou Anne por ela ser mulher, em resposta, ela pegou uma adaga e enfiou diretamente no coração do desafiante.

Foi nessa época que Mary Read, outra mulher famosa por se tornar pirata, juntou-se a tripulação de Jack, também disfarçada como homem. Mary Read nasceu na Inglaterra, e assim como Anne, quando criança teve que se disfarçar de homem para enganar sua família. Antes de se juntar a Jack, ainda disfarçada, Mary serviu o exército e ao se cansar do regimento, viajou para as Índias Ocidentais, onde se uniu a tripulação de Calico Jack.
Mary Read
Anne Bonny passou a se interessar por Mary, porém acaba descobrindo que ela também era mulher. As duas passaram então a ser amigas e amantes de Jack, trio inseparável que amedrontava os mares caribenhos. Tudo estava indo tão bem, até que certo dia Jack resolveu capturar um navio de doze toneladas, chamada William. Tudo ocorreu como planejado, sem muito sangue derramado, pois apesar de ser um dos piratas mais famosos do Caribe, Calico Jack não era tão cruel nem sanguinário, chegava a tratar até seus prisioneiros com certo respeito. Entretanto, o capitão do navio William , John Ham, apresentou queixa as autoridades, logo o capitão Rogers, governador das Bahamas, resolveu emitir uma ordem de prisão contra John Rackham. O capitão Rogers foi o mesmo que anteriormente havia concedido a anistia para Jack e muitos outros piratas que decidiram seguir uma vida honesta.
Mary - Anne - Jack

Então iniciou-se uma caçada. O governador, que já havia capturado muitos outros homens que voltaram a vida da pirataria, enviou 2 navios na busca por Jack. Ao ficar sabendo da notícia, John Rackham tentou ir para o sul porém foi interceptado por um navio de corsários comandado pelo capitão Jonathan Barnet. Após trocas de tiros, o William ficou danificado e Barnet enviou seus homens a bordo do navio de Jack. Porém ao invés de resistirem contra os invasores, a tripulação ficou acovardada, excepto por duas pessoas: Anne Bonny e Mary Read.
Elas tentaram encorajar seus companheiros, mas tudo em vão. A tripulação foi capturada, Jack e alguns outros piratas foram julgados e sentenciados a morte, sendo enforcados em novembro de 1820. Anne e Mary foram julgadas separadamente também sendo sentenciadas a morte , porém tinham uma carta na mangá, estavam grávidas. Seria um escândalo executar uma mulher grávida, e com isso, as sentenças foram anuladas.

Poucos meses depois do julgamento Mary Read contraiu uma febre, e não conseguindo se recuperar, ela e seu bebê acabaram morrendo. Quanto a Anne, ela continuou na prisão até seu parto, e de alguma forma, conseguiu suspender várias vezes sua sentença. Após isso, não se tem mais registros de Bonny, o que leva a crer que, após o nascimento de seu filho, ela resolveu levar sua vida honestamente.

Fonte: SHELLEY KLEIN - Os Piratas Mais Perversos da História
Imagens: google


Wilhelm CR

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