Nesta postagem pode parecer
que estamos desviando levemente o foco do blog, já que avançaremos
alguns anos na história, escrevendo sobre o período da era dourada
da pirataria (séculos XVI – XVIII). Entretanto o termo pirataria é
bem antigo, surgiu na Grécia com Homero em seu poema épico, a
“Odisseia”, onde ele designou o termo “pirata” para todos
aqueles que pilhavam navios e cidades costeiras.
"Na mente do marinheiro há
um horror supersticioso conectado à palavra
pirata; e há poucos temas que interessem e excitem mais a
curiosidade dos homens do que as terríveis proezas,
os feitos sórdidos e as carreiras diabólicas desses monstros
em forma humana"
Charles Ellms,
The Pirates Own
Book
Eis que estás a assistir
“Piratas do Caribe”, quando de repente, já na metade do filme,
você se depara com uma situação um pouco estranha, uma graciosa e
simpática mulher se envolve com piratas perversos e, em pouco tempo,
acaba e se caracterizando e se identificando como um deles. Não
demora muito para aparecer aquele questionamento em sua mente –
Como diabos uma mulher pode
se comportar desta maneira? Não existem piratas mulheres, que absurdo, piratas são figuras diabólicas que destroem tudo que aparecer pela frente, roubam joias, tesouros e matam todos os que se opuserem a eles. - Pois é... como Charles Ellms descreveu, piratas são de fato “monstros em forma humana”, porém o que poucos sabem é que dentre tais figuras (como Edward Teach, Henry Morgan, Bartholomew Roberts , John Rackham e o Capitão Edward Low ), existia também a presença de mulheres que ficaram famosas por seus atos de pirataria. De fato, são poucas as que conseguiram ficar conhecidas, mas em geral, todas elas podem ser consideradas tão perversas e perigosas quanto os piratas homens. Dentre as mais famosas podemos citar Grace O' Malley, Cheng I Sao, Anne Bonny e Mary Read.
se comportar desta maneira? Não existem piratas mulheres, que absurdo, piratas são figuras diabólicas que destroem tudo que aparecer pela frente, roubam joias, tesouros e matam todos os que se opuserem a eles. - Pois é... como Charles Ellms descreveu, piratas são de fato “monstros em forma humana”, porém o que poucos sabem é que dentre tais figuras (como Edward Teach, Henry Morgan, Bartholomew Roberts , John Rackham e o Capitão Edward Low ), existia também a presença de mulheres que ficaram famosas por seus atos de pirataria. De fato, são poucas as que conseguiram ficar conhecidas, mas em geral, todas elas podem ser consideradas tão perversas e perigosas quanto os piratas homens. Dentre as mais famosas podemos citar Grace O' Malley, Cheng I Sao, Anne Bonny e Mary Read.
GRACE O’MALLEY
"Veio até mim também a
mais feminina capitão do mar, chamada Granny Imallye,
e me ofereceu seus serviços, para onde quer que eu a
mandasse, com três galeras e duzentos homens experientes no
combate, fosse na Escócia ou na Irlanda. Trazia consigo seu
marido, porque tanto no mar quanto em terra era bem mais do
que a sra. Mate [...] Esta foi uma mulher famosa em
toda a costa da Irlanda."
Sir HENRY SIDNEY,
Governador da Irlanda, 1576
Grace O' Malley nasceu por
volta de 1530 em Connaught, costa oeste da Irlanda. Ela pertencia há
um clâ que tinha como lema “Terra marique potens” (Poderosos na
Terra e no mar), os Uí Mháille. O pai de Grace era um chefe local e
sua família possua muitas propriedades pela Irlanda, inclusive um
castelo. Como sua família era rica, Grace pôde receber uma educação
formal, porém ainda garota, ela gostava de se juntar aos meninos e
se aventurando em navegações. Foi nesse momento que ela recebeu o
apelido de Granuaile (careca), pois cortava seu cabelo de modo a
parecer um garoto. Granuaile cresceu vendo seu pai a bordo de
navios, e acabou aprendendo sobre o mundo dos negócios, da política
e pirataria, adquirindo também grande experiencia de navegação.
Grace O' Malley iniciou sua
carreira como pirata após a morte de seu primeiro marido, Dónal
O’Flaherty. Ela montou uma frota de três galeras e
alguns navios pequenos, começando então saquear e pilhar outros
navios. Daí por diante, sua fama foi crescendo cada vez mais após
bem-sucessivos ataques de pilhagem por boa parte da Irlanda e
Escócia. Não demorou muito para que surgissem várias lendas e
canções sobre suas expedições.
Uma história interessante
que mostrava o tamanho da grandeza de Grace, ocorreu em 1567, quando
ela dava a luz seu primeiro filho, Theobald, a bordo de
seu navio ao mesmo tempo que estava sendo atacado por piratas norte-africanos.
Grace, logo após dar a luz a Theobald, subiu imediatamente ao convés
coberta apenas com um lençol incentivando seus homens a reagirem ao enquanto que ela pegava um mosquete e disparava contras os
inimigos.
Mais tarde, Grace acabou se
envolvendo em disputas políticas entre irlandeses e ingleses, o que
acarretou em sua decadência, onde foi constantemente perseguida por
Sir Richard Bingham, comandante naval inglês da rainha Elizabeth I e
governador em Connaught. Bingham convenceu um dos filhos de Grace a
se unir contra sua mãe, enquanto o outro acabou sendo preso após
render-se. A única saída de Grace O' Malley, que já estava
desestruturada por toda humilhação que Binghan a fez passar, foi
conversar diretamente com a rainha Elizabeth I em Londres. Para isso,
Grace teve que fazer uma jornada um pouco perigosa, já que seu
status de rebelde e pirata a deixava em evidência.
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| Grace e Elizabeth |
A Rainha, em uma conversa
amistosa (episódio que marcou o folclore irlandês), concedeu o
direito de Grace reconstruir sua frota e viver em paz, também
ordenou a libertação de Theobald (filho de Grace). Então Granuaile
voltou para a Irlanda e se restabeleceu como pirata. O único
descontente com essa situação foi o Sir Richard Bingham, que
continuou a provocar e perseguir Grace, até ser substituído por Sir
Conyers Clifford em 1597. Grace O' Malley já com seus 70 anos, e
sem aquele vigor de sua juventude, entregou a tarefa de recompor a
glória da família a seus filhos, morrendo poucos anos depois,
imagina-se que foi em 1603 no castelo Carraigahowley.
CHENG I SAO
E agora vem a passagem
mais notável na história
desses piratas [...]
Após a morte de Ching-yih, sua esposa legítima tinha
suficiente influência sobre os piratas para induzi-los
a reconhecer sua autoridade no lugar de seu falecido
marido [...] a viúva de Ching era tão
inteligente quanto corajosa [...]
CHARLES ELLMS,
The Pirates Own Book: Authentic Narratives of the
Lives, Exploits and
Executions
of the Most Celebrated
Robbers
Poucas mulheres chegavam a
ser tão perversas e cruéis como os homens, mas uma em particular
ganhou destaque. Cheng I Sao era casada com Ching Yih, um dos
piratas mais famosos do início do século XIX, conhecido pela sua
capacidade de liderança e sede por sangue. Ching Yih dominou os
mares da China através de sua mão de ferro e brutalidade e só foi
de fato vencido pelas leis da natureza, pois dizem que ele morreu em
meio a uma tempestade, onde um poderoso furacão o atirou para fora
de seu navio. Para comprovar o tamanho de sua brutalidade segue
abaixo uma declaração de John Turner (feito prisioneiro de Ching
Yih por 5 meses), em “Sufferings
of John Turner...” :
"Eu vi um homem [...]
preso pelos pés ao convés com grandes pregos, e depois
espancado com quatro cordas trançadas juntas, até
ele vomitar sangue; e, depois de permanecer algum tempo
neste estado, foi levado à praia e esquartejado. [Enquanto
um segundo prisioneiro] foi colocado de pé e teve os intestinos
abertos e o coração arrancado, que
eles depois mergulharam em bebida
alcoólica e comeram
[...] O corpo morto eu mesmo vi."
Após a
morte de Ching Yih, sua esposa Cheng I Sao foi quem o ocupou seu
posto como comandante. Isso de certa forma não era incomum, pois na
China não era estabelecida uma forte divisão de trabalhos entre
homens e mulheres. As mulheres na China podiam fazer os mesmos
trabalhos que os homens, e até mesmo ocupar cargos de alta
importância. Cheng I Sao, a partir de então começou a ficar famosa
pelos seus sucessos como pirata, ultrapassando até mesmo os feitos
de seu ex-marido, mantendo sempre sua postura rígida e sua maneira
cruel de punir aqueles que desafiavam seus métodos e suas regras.
Mesmo
com as constantes tentativas do governo chinês acabar com a
pirataria, Cheng acabou construindo um império comercial com uma
perspectiva um pouco diferente dos piratas ocidentais, já que ela
era uma profissional dos negócios, possuía metas e objetivos
estabelecidos e a cada ano aumentava sua margem de lucro. Porém
Cheng I Sao não era apenas conhecida pela sua crueldade e
habilidade com negócios, ela e sua frota também possuíam uma
inteligência estratégica de defesa acima da média, possibilitando
a manutenção de se império marítimo sem muitas dificuldades.
Entretanto,
em 1810, esse grande império náutico passou por um sério problema
e quase que acabou sendo destruído. Os problemas começaram quando
Cheng I Sao promoveu seu marido Chang Pao a vice-comandante. Isso
gerou intriga entre alguns líderes dos outros esquadrões de Cheng I
Sao, o mais notável desses líderes foi O-potae; a situação
a partir daí ficou complicada. Pouco tempo depois, Chang Pao e sua
frota foram bloqueados pelos navios do Imperador chinês. Cheng
ordenou o que O-potae resgata-se Pao, porém essa ideia não alegrou
O-potae, que recusou a ordem. Cheng então quebrou o bloqueio e
resgatou seu marido declarando guerra a O-potae, este teve de se
retirar para não ser massacrado.
Sabendo
que estava com os dias contados, O-potae pediu indulto ao governo
chinês, que acabou o concedendo e o nomeando oficial imperial da
marinha chinesa. Nessa brincadeira, Cheng I Sao havia perdido mais de
8 mil homens que desertaram com O-potae, obtendo suas liberdades.
Essa redução na frota de Cheng, mais a presença dos navios
britânicos e portugueses, que ajudavam o governo chinês a acabar
com a pirataria, acabou por encurralar Chang Pao e Cheng I Sao.
Sabendo que não tinha muita escolha, Cheng já tinha se decidido
seguir o mesmo exemplo de O-Potae, quando o próprio governo chinês
ofereceu a anistia de Cheng I e de grande parte de seus homens. Cheng
I Sao, após algumas reuniões aceitou a oferta do governo chinês e
seu marido foi nomeado capitão da marinha imperial.
Cheng I
Sao, após a morte de seu marido, virou comerciante e dirigiu um
estabelecimento de jogos. Morreu aos 69 anos , em 1844, entrando para
a história como a mulher que consegui construir o maior império
pirata que o mundo já viu, nenhum outro pirata igualou o domínio e
a frota de Cheng I Sao. Infelizmente, apesar de muitos descreverem
detalhadamente como eram as atividades nos navios de Chen I Sao, não
há nenhum documento que descreve como era sua aparência.
ANNE
BONNY
"Ela tinha um
temperamento selvagem e corajoso,
razão pela qual, quando
estava sendo julgada, várias histórias foram
contadas sobre ela — o que sem dúvida a prejudicou
muito."
CAPITÃO
CHARLES JOHNSON,
A
General History of the Robberies and
Murders
of the Most Notorious Pirates
Anne
Bonny nasceu em 8 de março de 1700 na Irlanda, era filha bastarda
de um advogado, William Cormac,
com sua criada Mary Brennan. William gostava muito de sua filha,
então para evitar comentários ele obrigava sua filha a se vestir
como um menino, porém não demorou muito para que a fraude fosse
descoberta, o que provocou um grande escândalo, obrigando William,
Anne e Mary a se mudarem para a América, na Carolina do Sul.
Anne era
descrita como uma moça muito bonita, alta, esbelta, com os cabelos
dourados e olhos castanho-esverdeados. Porém, apesar de sua
aparência, Anne foi marcada por ser uma menina muito violenta,
desde sua infância mostrou indícios de que não seria uma mulher
comum; aos 13 anos, Bonny esfaqueou uma jovem criada na barriga com
uma faca de trinchar. Anne foi crescendo, e rapidamente foi se
entediando pela vida no campo. Em sua adolescência passou a se
relacionar com um marinheiro pobre, o que deixou seu pai furioso,
expulsando-a de casa.
![]() |
| Anne Bonny |
Anne e
seu marido foram para a ilha de Providencia, conhecida como reduto de
piratas, e lá se apaixonou por John Rackham, o famoso capitão
Calico Jack, que estava tentando levar uma vida honesta. Porém
Rackham não conseguiu viver de uma maneira honesta e montou uma nova
tripulação, ele também convenceu Anne a abandonar seu marido para
que pudessem ser piratas jutos.
Por regra, não era permitida a presença de mulheres na tripulação,
exceto por prisioneiras, e foi por esse motivo que Anne Bonny teve
que se disfarçar com roupas de homens. O disfarce foi bem aceito, já
que as habilidades de luta de Bonny eram tão boas quanto as de um
homem. Porém não era muito fácil para as mulheres se disfarçarem
como piratas, tinham que controlar suas necessidades para que não
fossem descobertas. Certa vez, um tripulante desafiou Anne por ela
ser mulher, em resposta, ela pegou uma adaga e enfiou diretamente no
coração do desafiante.
Foi
nessa época que Mary Read, outra mulher famosa por se tornar pirata,
juntou-se a tripulação de Jack, também disfarçada como homem.
Mary Read nasceu na Inglaterra, e assim como Anne, quando criança
teve que se disfarçar de homem para enganar sua família. Antes de
se juntar a Jack, ainda disfarçada, Mary serviu o exército e ao se
cansar do regimento, viajou para as Índias Ocidentais, onde se uniu
a tripulação de Calico Jack.
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| Mary Read |
Anne
Bonny passou a se interessar por Mary, porém acaba descobrindo que
ela também era mulher. As duas passaram então a ser amigas e
amantes de Jack, trio inseparável que amedrontava os mares
caribenhos. Tudo estava indo tão bem, até que certo dia Jack
resolveu capturar um navio de doze toneladas, chamada William.
Tudo ocorreu como planejado, sem muito sangue derramado, pois apesar
de ser um dos piratas mais famosos do Caribe, Calico Jack não era
tão cruel nem sanguinário, chegava a tratar até seus prisioneiros
com certo respeito. Entretanto, o capitão do navio William ,
John Ham, apresentou queixa as autoridades, logo o capitão
Rogers, governador das Bahamas, resolveu emitir uma ordem de prisão
contra John Rackham. O capitão Rogers foi o mesmo que anteriormente
havia concedido a anistia para Jack e muitos outros piratas que
decidiram seguir uma vida honesta.
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| Mary - Anne - Jack |
Elas tentaram encorajar seus companheiros, mas tudo em
vão. A tripulação foi capturada, Jack e alguns outros piratas
foram julgados e sentenciados a morte, sendo enforcados em novembro
de 1820. Anne e Mary foram julgadas separadamente também sendo
sentenciadas a morte , porém tinham uma carta na mangá,
estavam grávidas. Seria um escândalo executar uma mulher grávida,
e com isso, as sentenças foram anuladas.
Poucos
meses depois do julgamento Mary Read contraiu uma febre, e não
conseguindo se recuperar, ela e seu bebê acabaram morrendo. Quanto a
Anne, ela continuou na prisão até seu parto, e de alguma forma,
conseguiu suspender várias vezes sua sentença. Após isso, não se
tem mais registros de Bonny, o que leva a crer que, após o
nascimento de seu filho, ela resolveu levar sua vida honestamente.
Fonte: SHELLEY KLEIN - Os Piratas Mais Perversos da História
Imagens: google
Wilhelm CR













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